Em Comemoração ao Aniversário da Associação Clínica Freudiana


Estamos muito felizes, por comemorarmos juntos os 38 anos da Associação Clínica Freudiana. Nossa instituição nasceu em 1988, criada pelo professor e psicanalista Mário Fleig e pelo então acadêmico Luís Carlos Petry, inicialmente como um local de estágio, fazendo parte do Círculo Operário Leopoldense, denominando-se na época de Clínica Freudiana. Entretanto, antes mesmo de sua fundação oficial, a clínica freudiana, enquanto práxis clínica, já se fazia presente dois anos antes, através do trabalho de estudantes que realizavam atendimentos em locais cedidos pela comunidade. Entre estes estudantes, presentes nesta origem, cabe lembrar também de nossa colega Sonia Bley, que participou da fundação da Clínica, e que hoje é a diretora da Área Clínica da ACF. Gradualmente, outros colegas e estudantes passaram a fazer parte desta iniciativa, vindo aos poucos a ampliar o alcance dos atendimentos. É importante salientar que a Clínica Freudiana teve como uma referência fundamental, a antiga Policlínica de Berlim, na Alemanha, fundada ainda na época de Freud, por seus discípulos, que buscavam levar a escuta psicanalítica até as classes populares, ao mesmo tempo que recebia candidatos a futuros analistas. Assim, a então Clínica Freudiana, foi desde o início marcada por estes elementos, já em sua origem: em primeiro lugar, a centralidade na psicanálise; em segundo lugar, a questão do ensino e da formação; e, por fim, a busca por atender pessoas que de outra forma não teriam condições de ter acesso a um tratamento em psicanálise, o que se articulava com os preceitos do Círculo Operário.


A partir de movimentos institucionais internos, bem como de questões externas à Clínica, houve a construção do projeto de tornar-se uma instituição autônoma, independente de outra entidade. Isto ocorreu em 1998, com o que chamamos de re-fundação, já então como ACF, momento em que nos colocamos como uma instituição psicanalítica.


O tornar-se associação, não veio apenas do desejo de constituir-se de forma independente, mas sobretudo na medida de levar adiante o voto, já presente em sua criação, do trabalho quanto ao ensino e à transmissão. Assim, a partir deste momento, ao lado daquilo que Freud chamou de o “ouro puro da psicanálise”, a ACF instituiu formalmente o seu compromisso com a transmissão.


Ao longo destes 38 anos, muito se trabalhou e produziu aqui. Podemos dizer que o compromisso que foi assumido, tem sido desde então levado de forma continuada e rigorosa. Realizaram-se e realizam-se na ACF seminários, grupos de estudo, jornadas, cursos, publicações, assim como o Laboratório de Psicanálise, que se constitui em um conjunto de seminários de estudos sobre textos de Freud e de Lacan, e que se encontra em sua 13ª. Edição, com mais de 20 anos de trabalho.


Costumamos dizer que a ACF não “forma” psicanalistas, pois nenhuma instituição o faria. Temos o cuidado de não transmitir a falsa ideia de que uma instituição se encarregaria da formação das pessoas que a procuram. A ACF se insere e contribui para a formação dos interessados em psicanálise, mantendo clara a ideia de que esta formação é sempre um percurso singular, cujo epicentro é a análise pessoal, que nenhuma formação unicamente teórica poderia substituir. Pode-se dizer que, quanto à formação, tanto a análise pessoal, como o estudo teórico, a supervisão de casos, a troca constante entre os colegas, os desafios de trabalhar em associação, tudo isto converge com a clínica, na medida em que são sempre as questões do inconsciente, que encontramos, seja na clínica psicanalítica, seja no dia a dia de uma associação. Advém também daí a necessidade do rigor com a nossa práxis, com a ética que permite uma escuta para o mal-estar social, mal-estar que, como sabemos, se enlaça e se revela no sofrimento singular. Esta escuta transcende a comunicação, pois, no seu limite mais radical, a fala em análise não se endereça mais a nenhum outro, já que em seus confins, se abre à aproximação, impossível de ser alcançada, daquele núcleo de verdade que constitui, para cada um, o âmago de seu ser – expressão utilizada por Freud.


Pertencer a uma instituição psicanalítica é necessário para cada psicanalista, pois, como mostra a nossa história, a psicanálise não se faz individualmente. De fato, creio que isto é tão importante, que, inspirados pela leitura psicanalítica da constituição subjetiva, poderíamos fazer uma condensação e escrever esta palavra, pertencer, com “s” - “ perten-ser “ - já que é a partir de Outro que cada um se constitui como sujeito. Entretanto, tal como na história deste cada um, também o estar em associação implica a construção de um lugar próprio, único e singular, neste pertencimento e neste nó que nos liga a algo que nos ultrapassa e nos atravessa.


Assim, se o legado freudiano e lacaniano embasa o trabalho realizado aqui, por outro lado, também nos convoca naquilo que possuímos de mais íntimo, e que diz do desejo em relação à psicanálise. Nesse sentido, lembro aqui de outra noção freudiana fundamental: Eros, ou pulsões de vida. As pulsões de vida trabalham incessantemente no sentido da unificação, da vinculação, do estabelecimento e fortalecimento dos laços, o que leva até mesmo à busca por sínteses ou pela unidade. Estão, portanto, em um constante combate com a pulsão de morte, Tânatos, que, ao contrário, se dirige no sentido da dissolução, da dissociação, da diferenciação, do desligamento e do rompimento dos laços. Daí que a pulsão de morte também se manifesta nos desinvestimentos e nas desistências, no deixar de lado o que é significativo e importante. E neste sentido, ao contrário, somos convocados a não desistir, a retomar os caminhos de Eros a cada obstáculo, a re-investir nos laços que nos mantem unidos. Reconhecemos, portanto, nas pulsões de vida, em Eros, a questão mesma do amor. Amor no sentido freudiano, em seu enlace com o desejo, a fala e a linguagem.


Que a ACF continue sendo esse lugar, onde o desejo pela psicanálise encontra espaço para se transmitir, produzir trabalho e renovar laços.


Agradeço a todos e todas que, ao longo destes 38 anos, construíram e continuam construindo essa história.


Obrigado.


São Leopoldo, 22 de julho de 2026


Obs.: Texto apresentado por Carlos Rambo – Presidente da ACF – por ocasião da comemoração do 38° aniversário da instituição.

























Associação Clínica Freudiana
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